Cantando História

A música popular é uma rica fonte para entendermos a cultura popular e desvendarmos alguns fatos poucos esclarecidos.

Faraó

Autor:

Luciano Gomes

Tema:

Egito Antigo: Sociedade e Religião

Falar de Egito Antigo nos remete a uma civilização que se formou às margens do rio Nilo, no nordeste do continente africano, a partir de povos que constituíam os reinos do Baixo Egito (ao norte, junto ao delta do Nilo e ao Mar Mediterrâneo) e do Alto Egito (sul do Nilo) desde o quarto milênio antes de Cristo. Por volta do ano 3.200 a.C., um soberano do Alto Egito, Menés, consagra-se como faraó, unificando os dois reinos. Daí o significado das coroas duplas que usavam os primeiros faraós: representam os dois reinos egípcios unificados. A história do Egito Antigo se desenvolve de 3.200 até 30 a.C., ano em que se consolida o domínio dos romanos sobre a região. 

Sua organização política tendeu à centralização e o faraó concentrava em si os poderes de soberano administrativo, militar, legislativo e religioso, sendo cultuado por seus aspectos divinos.     

No plano religioso, acreditavam que cada corpo possuía uma alma e esta se manteria viva caso o corpo fosse preservado após a morte. Daí o aprimoramento egípcio das técnicas de mumificação, que consistiam no embalsamento dos cadáveres, preservando-os. Do mesmo modo, havia também a preocupação com os túmulos, que deveriam ser também duradouros e resistentes ao tempo: os corpos dos faraós foram guardados nas grandiosas pirâmides, construídas por ordem dos mesmos. Os faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos dão nome às pirâmides construídas na Planície de Gizé (situada a cerca de 20 km do centro da atual capital, Cairo), que datam do Antigo Império (3200 – 2000 a.C.). Durante o Médio Império, a capital mudou de Memphis (cujas ruínas encontram-se ao sul do Cairo) para Tebas e houve um período de prosperidade que durou quase quatro séculos, até a invasão dos hicsos, povo de origem semita e de grande capacidade militar que conquistou a região do Baixo Egito e por lá ficou por duzentos anos. Sua expulsão assinala o início do período conhecido como Novo Império (1580-1085 a.C.), no qual se consolida o poder do faraó sobre a totalidade do território, destacando-se o governo do faraó Tutmés III, no qual o Egito verificou crescimento político e comercial ímpar após promover conquistas militares na Palestina.     

O faraó Akhenaton era da mesma linhagem de Tutmés III, a 18ª dinastia, sendo o  responsável pela difusão da adoração de um único deus (monoteísmo), Áton. Seu filho, Tutancâmon, subiu ao trono aos nove anos de idade, e restaurou o politeísmo no Egito. Faleceu dez anos depois, em 1324 a.C. e tornar-se-ia bastante célebre mais de três mil anos depois, em  1922, quando seu sarcófago foi encontrado, contribuindo muito para os estudos sobre os antigos egípcios.  

A religião dos egípcios se baseava no politeísmo, havendo o culto de diversos deuses, cada um deles relacionado a forças da natureza ou aspectos cotidianos, sendo os principais  Rá (Deus-Sol) e Osíris (rio Nilo). Pela mitologia egípcia, no começo existia o caos, estágio personificado pelo deus Nun, a origem de tudo, o ser que se torna Atum, o deus primordial que cria outros deuses a partir de si mesmo: Shu (deus do ar) e Tefnut (deusa da chuva). De sua união nasceram Geb (deus da terra) e Nut (deusa do céu, a que gerou as estrelas, na música). Atum, o criador, tornou-se o primeiro faraó e tomou conhecimento de uma profecia: uma criança nascida de sua neta, a deusa Nut, o destronaria – o que levou Atum a proibir que Nut fosse mãe. A deusa do céu não se curvou à ordem e de seu ventre saíram quatro filhos: Osíris, Isis, Seth e Néftis, frutos de seu envolvimento com o deus Geb, seu irmão. 

Osíris, conforme a profecia, destronou Atum. Além disso, desde o útero materno, havia se envolvido com Isis, sua irmã, tal como estavam também ligados Seth e Néftis – a outra irmã com quem Osíris se envolve, provocando a ira de Seth, que mata o irmão, lançando-o ao Nilo. Isis, em prantos, sai em busca do corpo de Osíris e, para os egípcios da antiguidade, suas lágrimas correspondem às cheias do Nilo – daí atribuir-se a fertilidade do Nilo a Osíris. Com a ajuda de Anúbis (deus do mundo dos mortos), o corpo de Osíris emerge do Nilo (nem Osíris sabe como aconteceu / a emersão, de acordo com a letra da música) e sucede Anúbis no papel de condutor dos mortos após ter alguns instantes de vida, nos quais concebe, junto a Osíris, Hórus – o filho que vinga a morte do pai, matando Seth em batalha, e podemos perceber na canção: Hórus levando avante a vingança do pai / Derrotando o Império do mal Seth. Durante a briga, Hórus teve o olho esquerdo arrancado e substituído por um amuleto, tornado um dos símbolos mais famosos do Egito Antigo, o Olho de Hórus, que representa poder – e proteção aos que o carregam consigo.

Quanta coisa pode caber em uma canção, não é mesmo? Não deixemos de reparar em um trecho muito importante, também, que diz E nas cabeças enche-se de liberdade / O povo negro pede igualdade / Deixando de lado as separações, que sintetiza muito bem uma África explorada e dividida pelo imperialismo, já no século XIX de nossa era, que impôs fronteiras e não respeitou a história e o legado de tantos Impérios, como o Oyó, e Reinos como o do Mali e do Benim. Mas a África é rica em cultura e o Egito é uma parte de um continente que traz dentro de si uma infinidade de conhecimentos, civilizações e histórias, um continente rico em diversidades.

 

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